O sonho do czar, motivação de Putin agora é pública.
Por Luís Rosa - Longe vai o tempo em que o exército russo era pago em géneros, depois do descalabro do comunismo, sofria derrotas humilhantes na Chechénia ou chorava os mortos do submarino Kursk. A ambição política de Vladimir Putin de recuperar o estatuto de superpotência da União Soviética passa por um colossal investimento no rearmamento da Rússia. Nos próximos dez anos, Putin prevê investir 555 mil milhões de euros na modernização das indústrias de defesa, construindo mais 400 mísseis balísticos intercontinentais para o exército e a marinha, mais de 600 aviões de guerra, um número indeterminado de submarinos e desenvolvendo novo armamento inovador. Só no ano passado, a Rússia aumentou 25% os seus gastos militares, ultrapassando o Reino Unido e o Japão. A motivação de Putin é pública desde as últimas eleições presidenciais, altura em que anunciou estes investimentos: "É óbvio que não poderemos desenvolver a posição internacional, a economia e instituições democráticas russas se não pudermos defender a Rússia. Não podemos tentar ninguém com a nossa fraqueza." Ver a Ucrânia, um vizinho que sempre esteve sob a sua influência, virar-se para ocidente e recusar a "ajuda" russa sem nada fazer é isso mesmo: fraqueza. Para os russos, a Ucrânia é a última fronteira que os separa de um ataque do Ocidente. Daí Vladimir Putin ter respondido de forma dura às ameaças de Barack Obama no sábado, pedindo autorização ao parlamento para uma intervenção militar na Crimeia com mais de 15 mil soldados para proteger maioria da população russa que aí reside - uma estratégia já seguida na Abcássia ou na Odessa do Sul. A resposta a este desafio de Putin não pode nem deve ser, para já, militar. Devem ser esgotados todos os instrumentos diplomáticos ao alcance dos Estados Unidos e da União Europeia (UE) para promover um acordo entre a Rússia e a Ucrânia. É certo que a Rússia violou o Acordo de Budapeste por si subscrito, que protege de forma clara a integridade territorial da Ucrânia, é óbvio que Putin está a interferir nos assuntos de um Estado soberano em que a maioria dos cidadãos prefere viver segundos os valores democráticos da Europa, mas uma guerra entre dois dos principais exércitos europeus não interessa a ninguém. Obrigar diplomaticamente a Rússia a recuar deve ser a prioridade. Desde a ameaça de expulsão do G8, como os norte-americanos fizeram ontem, passando por sanções económicas ou uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, há muitos instrumentos ao dispor de Obama e da Europa. A ajuda económica à Ucrânia, por outro lado, é essencial para solucionar o perigo de bancarrota e combater a dependência energética que existe face à Rússia. Sem dinheiro, nada se conseguirá. Estados Unidos e UE estão a jogar muito da sua reputação no Leste com a crise ucraniana. Os ex-membros do Pacto de Varsóvia, como Polónia, Hungria, República Checa, Roménia ou Bulgária, são hoje países democráticos e capitalistas, tendo aderido à União Europeia e à NATO para se protegerem da Rússia. Uma anexação da Crimeia fará com que muitos desses povos duvidem da real influência do Ocidente. Ao fim e ao cabo, é esta a vitória mais desejada pelo novo czar, Vladimir Putin.
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